sábado, 28 de dezembro de 2013

REFLEXÃO SEDRAH 142 - EM DEVARIM 27 (A CAIAÇÃO )

(Shabat Shalom)
por Yossef Michael

A Sedrah desta semana nos fala sobre as bênçãos e maldições que seriam consequências da obediência ou não de nossos pais e, cujo efeito, é sentido até os dias de hoje.


Porém, algo bastante particular, chamou minha atenção. 

Vamos falar aqui dos passukim/versículos de Devarim/Deuteronômio 27:2-4: “No dia em que atravessares o Yarden/Jordão para entrares na terra que YHWH, teu Elohim, te dará, levantarás algumas grandes pedras e as pintarás com cal (basiyd). Atravessado para adentrar na terra que YHWH, o teu Elohim, te concede, uma terra onde manam leite e mel, como ADONAY, o Elohim dos teus antepassados, te prometeu. Logo após ter atravessado o Jordão erigirás essas rochas, conforme hoje te ordeno, sobre o monte Ebal, e as caiarás (basiyd).

Historicamente, a cal é utilizada desde longínquos tempos na construção civil, pelas mais diversas civilizações. Seu uso é muito anterior ao do cimento, cuja descoberta remonta ao período de domínio romano. Existem relatos de utilização da cal como uma argamassa ligante desde tempos muito remotos.

“A mais antiga aplicação da cal como aglomerante foi encontrada na Sérvia, ex-Iugoslávia, nas ruínas de uma casa datada de 5600 a.e.c., com o piso feito de uma cal vermelha, areia, e pedregulho, mas o produto começa a aparecer com freqüência nas construções a partir da civilização egípcia. O material de vedação da Pirâmide de Quéops (Khufu) (2.700 a.e.c.) demonstrou que os egípcios tinham experiência na utilização da argamassa de cal. Na pirâmide do faraó egípcio Tutancâmon (1.450 a.e.c.), há uma porta construída com enormes pedras rebocadas com argamassa, e na antecâmara havia um recipiente com argamassa utilizada para rebocar a porta. Podemos então considerar que o cimento, como o conhecemos hoje, têm sua origem em 2500 a.e.c., com essa argamassa egípcia constituída por uma mistura de gesso calcinado. Esse conhecimento difundiu-se pelos povos do Oriente e posteriormente pelo Mediterrâneo, Grécia e Roma. No Palácio de Knossos (2.000 a.e.c.), em Creta, foram encontrados locais revestidos com duas camadas de argamassa com cal e fibras de cabelo, utilizadas como telas para afrescos. Uma extensa muralha foi construída em torno de Jericó (1000 a.e,c.), a 23 km de Jerusalém, para proteção da cidade. Em O Nome da Rosa, Umberto Eco, cita uma ampola com amostra de argamassa usada na construção da muralha entre as relíquias e tesouros guardados na abadia (Guimarães, 1997).”

Mas qual a relevância da cal para a compreensão da mensagem que a Torah procura nos transmitir?

Creio que o hebraico possa nos ajudar a esclarecer esta interessantíssima relação!

A palavra aqui traduzida como “as pintarás com cal” ou mesmo “as caiarás” é "basiyd", do radical "siyd". Encontrei apenas uma passagem no Tanach em que "siyd" tenha sido utilizada e a mesma está em Yeshaiyahu/Isaías 33:12, “E os povos serão como as queimas de cal; como espinhos cortados arderão no fogo”.

Nesta passagem de Yeshaiyahu/Isaías, vemos que as nações seriam como as “queimas de cal”?!?!?
Mas por que isto? O que é esta queima de cal?

(cacos de carbonato de cálcio)
O carbonato de cálcio é a rocha que encontramos na natureza e que, quando submetida a grandes temperaturas, acima de 800°C, dá origem ao óxido de cálcio (a cal viva). A cal extinta como hoje utilizamos em diversos processos construtivos passa ainda por outros processos de britagem e de hidratação para se chegar aos mais diversos fins. Ou seja, após a queima e com a adição de água, podemos conseguir fazer com que a cal seja utilizada tanto como uma argamassa para assentamento de pedras, calcárias ou não, como para se utilizar como um material de pintura, entre outras.

Em minha modesta opinião, as duas leituras são possíveis. Tanto como uma pintura ou mesmo como um material de assentamento. 

A segunda leitura, porém, quando confrontada com a passagem seguinte nos traz um interessante e diferente entendimento, senão vejamos:

Yeshaiyahu/Isaías 27:9, “Por isso se expiará a iniqüidade de Ya’akov/Jacó, e este será todo o fruto de se haver tirado seu pecado; quando ele fizer a todas as pedras do altar como pedras de cal (gir) feitas em pedaços, então os bosques e as imagens não poderão ficar em pé”.

A palavra desta passagem de Yeshaiyahu/Isaías para cal é, no hebraico, "gir", cujas letras são as mesmas utilizadas para se referirem de forma praticamente absoluta em todas as Escrituras, para “estrangeiro, peregrino”, "ger". Como no hebraico antigo não havia a vocalização, como hoje conhecemos, é perfeitamente possível que a palavra seja exatamente a mesma utilizada para ambos os casos.

A mitsvah/determinação de Devarim/Deuteronômio 27 foi cumprida, conforme a passagem seguinte:

Yehoshua/Josué 8:28-30, “Então Yehoshua/Josué edificou um altar ao Eterno Elohim de Yisra’El, no monte Ebal. Como Mosheh/Moisés, servo do Eterno, ordenara aos filhos de Yisra’El, conforme ao que está escrito no livro da Torah/lei de Mosheh/Moisés, a saber: um altar de pedras inteiras, sobre o qual não se moverá instrumento de ferro; e ofereceram sobre ele holocaustos ao Eterno, e sacrificaram ofertas pacíficas. Também escreveu ali, em pedras, uma cópia da Torah/lei de Mosheh/Moisés, que este havia escrito diante dos filhos de Yisra’El”.

Mas e agora, qual a relação da caiação, da cal com esta questão do altar?

Vemos que, conforme a passagem de Yeshaiyahu/Isaías, as pedras de cal (gir) serão o ponto de partida para a redenção de nosso povo, Am Yisra’El, pois então se verá que a transgressão à Torah será eliminada de nosso meio, já que a abominação causada pela adoração a outros elohim não mais será vista, daí a referência aos bosques e imagens que não mais ficarão em pé...

Porém, esse altar precisa ter suas pedras “alvas”, caiadas, o que só é possível após a passagem das mesmas pelo fogo, ou seja, há necessidade de um grande processo de purificação a ser feito, primeiro cauterizando-se nossos corações e mentes, para que possamos reconhecer ao Criador como Echad/Único.

Para que haja estabilidade, ou seja, para que esta construção “pare em pé”, há ainda a necessidade de uma “argamassa ligante” para que as pedras não deslizem, uma vez que não há a utilização de ferramentas para se “trabalha-las”, estando estas pedras em um estado natural, não trabalhado por mãos humanas... A obtenção desta argamassa só é possível, também após a “calcinação/queima” em elevadíssimas temperaturas...

Ainda que os homens sejam capazes de promover esta “queima” para a obtenção da cal viva, é do Eterno que vem o “toque final”, ou melhor, a adição da “água”, a responsável por transformar a cal viva em extinta e daí, moendo-a chegarmos a este material, utilizado tanto para a pintura como para o preparo da argamassa ligante...

Não para por aí... O reajuntamento de Seu povo, hoje “perdido” entre as mais diversas nações é justamente o elemento formador deste altar, pois o “estrangeiro”, ger, precisa reconhecer ao Criador como sua única fonte de expiação para que, uma vez reajuntado, possa estar ligado, como nos é dito na passagem de Yeshaiyahu/Isaías 27:9, como pedras de cal, gir, e uma vez “caiados e assentados”, basiyd, estejam prontos para que possamos oferecer novamente sacrifícios ao Elohim altíssimo!!! O estrangeiro que aceita retornar ao Criador quando em conjunto com o natural dão a sustentação necessária para a ação final do Criador, BH!!!

Vemos que aqueles que, diligentemente, não desejarem seguir Suas Mitsvot/Mandamentos estarão sujeitos às queimas de cal... Serão extirpados como espinhos que queimam no fogo!!! Somente aqueles que forem realmente como a cal, rochas sólidas, suportarão o processo de purificação...

Impressionante, não?!?!?! Como já dito em outras vezes, a Torah é prática!!! Tudo isto dito em uma linguagem perfeitamente acessível a nossos pais, tão acostumados aos trabalhos na “indústria” da construção egípcia...
Shabat Shalom!!!
Chazak, Chazak Venit Chazek!!!
Força, força e que sejamos fortalecidos!!!

*Dados extraídos da seguinte fonte: "Sobre as origens e desenvolvimento do concreto - About the origins and development of reinforced concrete"
João Dirceu Nogueira de Carvalho

Prof. Dr. Departamento de Engenharia Civil Universidade Estadual de Maringá. 
E-mail: jdnc@uem.br

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