sábado, 14 de dezembro de 2013

REFLEXÃO SEDRAH 140 - NA HAFTARAH DE YIRMIYAHU 2 (ESTRANHO, ESTRANGEIRO)

por Yossef Michael
A Sedrah desta semana nos traz de forma muito clara e “pesada” a questão da idolatria como pano de fundo para todas as desgraças que ocorreram com nossos pais no passado e que, hoje em dia, faz com que Seus filhos continuem tão distantes de Seus Caminhos, Sua Torah.

Para tanto, vamos estudar um passuk/versículo em especial, Yirmiyahu/Jeremias 2:21, “Eu a plantei como uma videira excelente, de semente absolutamente pura. Como pudestes te deixar transformar numa parreira podre e selvagem?”.

Veanochi = Eu
Neta’tiych = Plantei
Soreq = Uvas selecionadas
Kuloh = Toda
Zera = Semente
Emet = Verdadeira
Veeich = Como
Neh’pach’te = Subverteu
Liy = A mim
Surei = Degenerada, Podre
Hagefen = Videira, Vide
Nach’riyah = Estranha, Estrangeira

Vemos aqui que, pelo contexto, tanto do passuk/versículo anterior como o seguinte que o Eterno fala de Yisra’El, Seu povo, e de tudo aquilo que havia feito de mal, prostituindo-se, adorando a outros que não, Ele, o Criador!

A tradução proposta é perfeitamente possível!

Algumas palavras desta passagem chamaram-me a atenção... "Sorek", aqui traduzidas como “videira excelente”, ou em um sentido mais direto, algo que é selecionado, pois a palavra em si, não carrega qualquer referência a uma videira.  A Concordância Strong nos traz ainda uma ideia da associação desta raiz à uva, levando-se em consideração a continuação do texto e sua coloração avermelhada, podendo fazer alusão a um cavalo alazão, "saruk", de cor forte, “avermelhada”, ainda derivando de "sharak", “assovio”, algo como um chamamento.

Obviamente no campo da especulação, o emprego de "sorek" não é de todo estranho então, se imaginarmos que esta “seleção” seja possível como “um cavalo que atende ao chamado de seu dono, através do assovio que lhe é único e inconfundível”. Interessante não?

Mas qual a razão de supormos uma leitura tão alternativa para a passagem? Justamente pelo que vem a seguir. O Eterno, através do profeta Yirmiyahu/Jeremias, está falando de Seu povo, Am Yisra’El, a semente verdadeira, sua noiva, a quem sempre foi fiel. Por outro lado, vemos sua indignação ao ver que aquele povo, Seu povo, seguia subvertendo-se e seguindo a outros, que não Ele... Tornando-se assim degenerados, ao ponto de serem considerados como “videira estranha, estrangeira”.

Em outro estudo, falamos especificamente sobre esta condição, a de se tornar “estranho, estrangeiro”, muito evidente aqui com a utilização da palavra "nach’riyah"

Vamos ver de que forma isto ocorre?

A Concordância Strong irá nos ajudar com a apresentação de possíveis versões para os radicais que dão origem a esta palavra, objeto de nosso estudo:

05237 נכרי nokriy - procedente de 5235 (segunda forma); DITAT - 1368c; adj.

1) estrangeiro, alheio
    1a) estrangeiro
    1b) estrangeiro (substantivo)
    1c) mulher estrangeira, meretriz
    1d) desconhecido, não familiar (fig.)

Como vemos acima, procede de 05235 que, por sua vez, procede de 05234 נכר nakar - uma raiz primitiva; DITAT - 1368; v

1) reconhecer, admitir, conhecer, respeitar, discernir, considerar
    1a) (Nifal) ser reconhecido
    1b) (Piel) considerar
    1c) (Hifil)
          1c1) considerar, observar, prestar atenção a, dar consideração a, notar
          1c2) reconhecer (como anteriormente conhecido), perceber
          1c3) estar disposto a reconhecer ou admitir, reconhecer com honra
          1c4) estar familiarizado com
          1c5) distinguir, compreender
    1d) (Hitpael) tornar-se conhecido

2) agir ou tratar como estrangeiro ou estranho, disfarçar, confundir
    2a) (Nifal) disfarçar-se
    2b) (Piel)
          2b1) tratar como estrangeiro (profano)
          2b2) confundir
    2c) (Hitpael)
          2c1) agir como estrangeiro
          2c2) disfarçar-se

Se fosse para falarmos de "estrangeiros", não poderíamos ter o radical "ger"? Claro que sim... 

Mas o que quer dizer então a passagem de Yirmiyahu/Jeremias? Que aquele povo havia se tornado algo quase irremediavel... Algo odioso aos olhos do Eterno!!! Olhando para o que trouxemos acima, para melhor contextualizar o uso de "nach’riyah", vemos que seu uso nos invoca a considerarmos aquele povo como pessoas que agiram, por sua livre opção, de maneira rebelde, disfarçados, profanos... Este tipo de comportamento, além de não recomendável, é passível de tornarem-se “não povo”, de deixarem de ser considerados como esta vide de uvas excelentes, de semente pura e verdadeira... Ficam assim impedidos de reconhecerem ao “assovio de seu Criador”!!! 

É o que hoje vivemos... Não reconhecemos Seu chamado, não O vemos como deveríamos... Preferimos nos preocupar com a estupidez e pequenez de nossos objetivos e “umbigos”...

Yechezk’El/Ezequiel 15:1-8, “E veio a mim a palavra do Eterno, dizendo: Filho do homem, que mais é a árvore da videira do que qualquer outra árvore, ou do que o sarmento que está entre as árvores do bosque? Toma-se dela madeira para fazer alguma obra? Ou toma-se dela alguma estaca, para que se lhe pendure um vaso? Eis que é lançado no fogo, para ser consumido; ambas as suas extremidades consome o fogo, e o meio dela fica também queimado; serviria porventura para alguma obra? Ora, se estando inteiro, não servia para obra alguma, quanto menos sendo consumido pelo fogo, e, sendo queimado, se faria ainda obra dele? Portanto, assim diz Adonai, o Eterno: Como a árvore da videira entre as árvores do bosque, que tenho entregue ao fogo para que seja consumido, assim entregarei os habitantes de Yerushalayim/Jerusalém. E porei a minha face contra eles; do fogo sairão, mas o fogo os consumirá; e sabereis que eu sou o Eterno, quando tiver posto a minha face contra eles. E tornarei a terra em desolação, porquanto grandemente transgrediram, diz Adonai, o Eterno”.

Se esta vide se tornar "nach’riyah", teremos um fim muito terrível para nossa existência... 

Vejamos esta outra passagem que está em Yechezk’El 9:6-11, “Matai sem dó: idosos, rapazes e moças, crianças e mulheres, até aniquilar a todos. Todavia não tocai em ninguém que tenha recebido o sinal da salvação. Começai, pois, a destruição pela minha própria Casa, o Templo”. Então eles iniciaram a matança pelas autoridades que estavam na frente do santuário. E ele ainda lhes ordenou: “Contaminai e profanai o Templo, lotai de mortos os grandes pátios, e abandonai o lugar. Agora, podeis ir!” Eles partiram e imediatamente deram início à matança em toda a cidade. Enquanto aquela carnificina prosseguia, fiquei sozinho. Então prostrei-me, com o rosto rente ao pó da terra, e clamei em alta voz: “Ó YHWH! Soberano Elohim! Vais mesmo destruir toda essa gente de Israel, lançando a tua indignação sobre Yerushalayim?”  E o SENHOR me respondeu: “A malignidade da nação de Israel e de Judá é incomensurável; a terra está mergulhada em sangue; e a cidade, atolada na injustiça; pois eles vivem alegando: ‘Ora, YHWH já abandonou toda a nação; o SENHOR não olha mais para o seu povo!’ Sendo assim, Eu também não terei misericórdia nem compaixão dessa gente; farei recair suas más atitudes e obras sobre suas próprias cabeças!” E o homem que estava vestido de linho, em cuja cintura estava o estojo de escrevente, retornou com o relatório, e apresentou-o dizendo: “Fiz tudo conforme me ordenaste!”.

Se trouxermos esta passagem para os dias de hoje, então diremos “Estamos condenados, não temos salvação!”... Sim e não... Nós temos o sinal da salvação, basta não nos rebelarmos e desejarmos com todas as nossas forças mostrarmos que ainda somos aquela videira plantada por Ele, com uma semente pura e verdadeira... Que continuamos a ouvir Seu chamado a toda hora... Que estamos prontos a segui-lO, através da obediência à Sua Instrução, Sua Torah!!!

Será que é fácil? Estamos distantes da condição de "nach’riyah"? Não e não... Honestamente, creio que vivemos sobre uma espécie de “corda bamba”... De um lado, uma vida próspera, egoísta, conjugada em primeira pessoa apenas e de outro uma vida de “servos”, tanto e principalmente a Ele, como a nossos próximos... Quando compreendermos que aqui estamos para servir e não para sermos servidos, talvez nos aproximemos mais do sinal a ser feito sobre nós, para quando chegar o “grande e temível Dia”...

Com base nisto, precisamos fazer algo grandioso todos os dias, a fim de nos destacarmos e assim sermos por Ele “vistos”? Em minha humilde opinião não... O “simples” geralmente é aquilo que agrega mais valor... Devemos buscar na simplicidade de nossos atos, esta condição de servos... Devemos agir pautados nas Escrituras que, por si só, já nos garantem tudo o que precisamos para uma vida íntegra, menos egoísta e alinhada totalmente com a Vontade do Criador... Simples deste jeito!!! Uma vez assim, naturalmente, subimos “degrau a degrau” pela “escada” que nos aproxima dEle...

Um grande risco, no qual incorremos todos os dias, é duvidarmos da capacidade de nos perdoar que o Eterno tem... Usar isto como uma espécie de “desculpa para pecarmos” é uma mortal armadilha!!! Frases do tipo “Já que não tenho jeito, vou fazê-lo (pecar) de qualquer forma! Não mudará nada mesmo!”, são dignas da condição de "nach’riyah" e, provavelmente, indicam um PNR (ponto de não retorno) de acordo com a passagem de Yechezk’El/Ezequiel 9, como vimos acima...

“Pai, perdoa-nos da surdez, da cegueira e da estupidez de nossos lábios!!!”
Shabat Shalom!!!
Chazak, Chazak Venit Chazek!!!
Força, força e que sejamos fortalecidos!!!

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