sábado, 9 de novembro de 2013

REFLEXÃO SEDRAH 135 - DEVARIM/DEUTERONÔMIO 16 (O SUBORNO)

por Yossef Michael
Vamos às passagensA reflexão da Sedrah desta semana está em Devarim 16.

Inicialmente, vamos a duas passagens:

Devarim/Deuteronômio 16: “Não perverterás o direito, não farás acepção de pessoas e nem aceitarás suborno (shochad), pois o suborno (hashochad) cega os olhos do sábio e falseia a causa dos justos”;

Mishlei/Provérbios 17:23: “O ímpio toma presentes (shochad) em secreto para perverter as veredas da justiça”.

O suborno, muitas vezes, também traduzido como presente, no hebraico é "shachad" - uma raiz primitiva.

Vamos à passagem de Mishlei/Provérbios, no hebraico:
  • shochad mecheik rasha yikach lehatot archot mish’pat
  • shochad = suborno/presente
  • mecheik = apagador/borracha
  • rasha = ímpio/perverso
  • yikach = tomar/aceitar/receber
  • lehatot = perverter/favorecer/desviar
  • archot = caminhos/veredas
  • mish’pat = justiça/direito/juízo

Interessante que, pelo contexto, em ambas as passagens vemos o suborno (shochad) associado com algo que não pode ser visto; em Devarim/Deuteronômio diz-se que ele cega os olhos do sábio e em Mishlei/Provérbios ele é recebido em secreto, ou em uma tradução mais literal, que pode ser apagado, ou seja, algo que não deixa vestígios.

Vemos também em Devarim/Deuteronômio que o suborno (shochad) falseia a causa dos justos.

No hebraico, “causa” aparece como "divrei", literalmente, “palavras”.

Em Shemot/Êxodo 23:8, temos expressão idêntica: “Também suborno não tomarás; porque o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos”.

Vejamos agora esta passagem de Mishlei/Provérbios 22:12: “Os olhos do Eterno conservam o conhecimento, mas as palavras do iníquo ele transtornará”.

A palavra que aqui aparece traduzida em Shemot/Êxodo como “perverte” e em Mishlei/Provérbios como “transtornará” é a mesma que aparece em Devarim/Deuteronômio traduzida como “falseia”, no hebraico, "vyisalef ou vaisalef".

Desta forma, a passagem de Mishlei/Provérbios 17:23, nos dá agora uma real inferência do que o Eterno deseja nos dizer... Aquilo que fazemos de forma “oculta”, isto é, que achamos não poder ser vista, faz com que nos desviemos dos caminhos do Eterno, as veredas da justiça.

A sabedoria, segundo todas estas passagens, está associada à visão, ou seja, age com sabedoria aquele a quem os “olhos do Eterno” conservam, enquanto aqueles que praticam o suborno (shochad) têm suas palavras transtornadas, pervertidas pelo próprio Criador!  A mesma expressão é utilizada para mostrar a consequência para aquele que pratica o suborno, como para aquele que ali figura como agente passivo.

Não à toa, o contexto do que está sendo dito aqui, refere-se à testemunha, para que uma pessoa pudesse ser julgada à luz da Torah. Tanto que aquele que promove o suborno, como aquele que o recebe, tem suas palavras pervertidas, ou seja, não estão aptos a serem testemunhas, por terem se desviado das veredas da justiça.

Na cultura hebraica, assim como em outras, a justiça está intrinsecamente associada aos olhos, à visão. Não faltam exemplos disto, mas, com certeza, os aqui apresentados, pautados, exclusivamente, nas Escrituras, nos dão a dimensão do que representa para o Eterno, a prática do suborno - algo fortemente proibido!

Devarim/Deuteronômio 16:20, “Busca somente a justiça, para que vivas e possuas a terra que O Eterno teu Elohim te dará”.

E, logo em seguida, vem a já aguardada referência à idolatria, Devarim/Deuteronômio 16:21-22: “Não plantarás um poste sagrado ou qualquer árvore ao lado de um altar do Eterno teu Elohim que hajas feito para ti,  nem levantarás uma estela, porque O Eterno teu Elohim a odeia”.

Os passukim/versículos não são ou estão isolados, mas, devem ser compreendidos por seu contexto. Assim sendo, vemos que a justiça/sabedoria, associados diretamente à visão, é uma característica conferida pelo Eterno, segundo Mishlei/Provérbios 22, àqueles que não buscam a prática de algo “velado, oculto”, pois para Ele nada o é.

Mas, e qual a relação com a idolatria? Ao dizer que o Eterno odeia aqueles que levantam para si postes ou árvores sagrados para adoração, Ele nos revela que Seu povo buscava materializar algo que não podia ser visto - Seu poder! Indo um pouco além, tentamos de toda forma transferir a outros elohim, algo que pertence exclusivamente a Ele: a sabedoria, a justiça.

Assim, podemos inferir que aqueles que se sujeitam a praticar algo que se entenda por “velado/oculto”, assim pervertendo as veredas da justiça, além de “se perder”, ainda provocam no agente passivo, a mesma condição; ele deixa de “enxergar”.

O “enxergar”, segundo as Escrituras, nos confere sabedoria (da’at) e nos torna sábios (chachamim), com uma única condição, a prática da Torah. Quando na idolatria, estamos verdadeiramente cegos, incapazes de vislumbrarmos a simplicidade que deveria nos nortear.

Como a prática do suborno (shochad) é algo que acompanha a criação desde suas mais remotas origens, a fim de evitar a injustiça, o Eterno nos ordena que duas testemunhas sejam necessárias para que um acusado pudesse ser condenado. Assim, casa haja o suborno sobre uma destas testemunhas, o relato da outra poderá impedir um julgamento indevido. Neste cenário, uma terceira testemunha “desempatará” a questão.
Como de costume, nada de oculto aqui aparece, nada espiritual, mas prático! Sim, a mais pura e direta prática, a partir da Torah. 
Um pouco mais à frente, em Devarim/Deuteronômio 17, vemos a ordenança para que, caso haja uma questão de difícil julgamento, por se tratar de algo muito grave e sem possibilidade de uma adequada investigação, tal questão deveria ser levada até os sacerdotes (cohanim), na cidade em que o Eterno escolhesse para lá fazer habitar Seu Nome, para que então a justiça fosse praticada de forma imparcial.
Devarim/Deuteronômio 17:8-9, “Quando tiveres que julgar uma causa que te pareça demasiado difícil — causas duvidosas de homicídio, de pleito, de lesões mortais, ou causas controvertidas em tua cidade —, levantar-te- ás e subirás ao lugar que Eterno teu Elohim houver escolhido.  Irás então até aos sacerdotes levitas e ao juiz que estiver em função naqueles dias. Eles investigarão e te anunciarão a sentença”.
Ao reler a passagem de Shemot/Êxodo 23, com base no aqui aprendido, vemos que o equilíbrio é a chave para a compreensão da vontade do Criador. Encerro este humilde estudo com uma reflexão.

Mishlei/Provérbios 2:6-9, “Porque o Eterno dá a sabedoria; da Sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. Escudo é para os que caminham na sinceridade, para que guardem as veredas do juízo. Ele preservará o caminho dos Seus santos. Então entenderás a justiça, o juízo, a eqüidade e todas as boas veredas O bom siso te guardará e a inteligência te conservará; para te afastar do mau caminho, e do homem que fala coisas perversas; dos que deixam as veredas da retidão, para andarem pelos caminhos escusos; que se alegram de fazer mal, e folgam com as perversidades dos maus, cujas veredas são tortuosas e que se desviam nos seus caminhos”.
Chazak, Chazak Venit Chazek!!!
Força, força e que sejamos fortalecidos!!!

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