domingo, 12 de maio de 2013

O EFEITO KORACH (CORÉ) - BAMIDBAR (NÚMEROS) 16:1-35


“E se congregaram contra Moshe e contra Aharon, e lhes disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e YHWH está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação de YHWH?” 
(Bamidbar/Números 16:3)

Poucos episódios foram tão perigosos para o povo de Israel quanto a rebelião de Korach (Corá). Perigo esse que é muito semelhante ao que vivemos na atualidade. E o leitor brevemente irá compreender porque de minha colocação.
O grito de Korach (Corá) não é diferente do grito de muitos por uma liberdade religiosa sem precedentes históricos. Porque não estamos falando da liberdade de se seguir o que desejar, religiosamente. Estamos falando de uma espécie de permissividade religiosa.
Ao declarar que tudo é santo, todos são santos, e que YHWH estaria no meio de todos, Korach (Corá) basicamente se coloca acima da fé revelada aos pés do Sinai. Ser quem ele era – um filho de Levi – torna-se mais importante do que a observância da ordem dada aos filhos de Levi. Ao fazer isso, Korach não percebe que atenta contra si próprio, pois era justamente essa ordem que definia quem ele era.
A fé (uso o termo aqui liberalmente) tem uma função muito importante, que é a de colocar limites em nós. Isso não significa, evidentemente, que a experiência da fé ou do relacionamento com o Eterno sejam unicamente isso. Porém, o estabelecimento de limites é algo extremamente importante. Pois você só sabe onde você começa e onde termina o ambiente ao redor porque você tem limites físicos. O mesmo é verdade para limites de comportamento.
Pessoas que tenham, em casa, uma Torah aberta e uma estátua de Buda – como já vi acontecer – incorrem em algo muito mais grave do que a idolatria. É irônico que um objeto que condene a idolatria a imagens em função do único Elohim, e outro que represente uma crença praticamente ateísta, estejam lado-a-lado, ao gosto de quem os têm.
Prestar-se a tal incoerência teológica significa que a pessoa não se importa de ignorar os limites tanto da Torah quanto da filosofia budista, e que ambos só valem enquanto objetos, poderes ou filosofias, capazes de dar à pessoa algum benefício. Ignora-se os limites. O mesmo vale para a maioria dos sincretismos religiosos da época moderna.
O relacionamento casual para com as experiências religiosas é perigosíssimo porque furta do indivíduo a capacidade de protegê-lo de si mesmo, através dos limites. Obtém-se de cada religião, culto ou objeto apenas aquilo que é conveniente, deprezando o que não é. Mesmo que o que não conveniente seja a própria coisa que constitui a identidade do objeto. No caso da Torah, por exemplo, o próprio monoteísmo.
Convenhamos, se fôssemos seguir unicamente as nossas vontades, tomaríamos por meio de roubo qualquer objeto que nos interessasse, agrediríamos outras pessoas quando tivéssemos raiva, seríamos devassos, glutões, beberrões, imorais, entre outros predicados do gênero. E nos destruiríamos em uma fração do tempo de nossas vidas.
O que é capaz de tirar uma pessoa do lamaçal é justamente aquilo que dá limites que permitam que ela se reconheça como pessoa. E a Torah é uma ferramenta preciosíssima para o desenvolvimento pessoal porque ela faz exatamente aquilo que mais a sociedade atual precisa e tem falta: Ela diz alguns ‘nãos’ muito bem ditos, e condiciona direitos e prazeres a obrigações. Isso constrói um caráter.
Por essa razão, a Torah é impopular. Mas também por essa razão ela é singular na capacidade transformadora que pode ter. Uma pessoa que se ocupa de viver a Torah – a Instrução do Eterno – não será perfeita. Não necessariamente receberá medalhas de comportamento. Mas romperá com importantes ciclos de auto-destruição, e será capaz de se edificar, e de construir algo com os que estão ao redor.
Esses ‘nãos’, todavia, só funcionam porque na Torah não existe jeitinho, nem permissividade. A Torah é o que é, e se você quiser vivê-la, deve se sujeitar às suas condições.
Porém, o maior adversário da Torah é justamente o sincretismo amorfo. Ou seja, onde uma religião apertar o calo, pula-se rapidamente para outra. Exemplos: Come-se casher, mas ao bater a vontade de comer um torresmo, procura-se subtervúgios. Declara-se israelita, porém a Torah não entra em sua vida sexual. Justificativas? Sempre haverá muitas! Afinal, o filósofo X disse isso, ou a religião Y diz aquilo, ou a sociedade ‘avançou’ nesse sentido.
Vale lembrar que sociedades avançadíssimas em alguns conceitos e pretensas liberdades, nos quais os ingênuos habitantes do século XXI se consideram vanguardistas, já não existem mais. Como, por exemplo, a Grécia Antiga e o Império Romano. Mesmo assim, Am Israel Chai – O povo de Israel vive. E também viverá após o declínio da sociedade ocidental do século XXI, que não é uma sociedade auto-sustentável, justamente porque falha ao estabelecer limites.
A Torah protegeu Israel. A Torah protege Israel. Mas a Torah não pode proteger Israel de si mesmo, se Israel desprezar a Torah.
Se você está lendo este blog, é porque a fé israelita de alguma forma te atrai. Se ela te atrai, aceite-a com suas vantagens e obrigações. Porque buscar as vantagens e deslizar nas obrigações fará com que ela não seja eficaz em tornar você uma pessoa melhor.
Esse foi o problema de Korach (Corá). Ele aceitava sua origem e chamado enquanto filho de Levi. Aceitou o livramento dado por Elohim no Egito. Aceitou ser conduzido até o momento de seu interesse. Aceitou até mesmo que o povo deveria ser santo, isto é, distinto, separado para YHWH.
Quando, porém, a Torah (Instrução) de Elohim foi inconveniente para ele, pois se chocou contra seu ego, Korach (Corá) contestou e quis deslizar pelos limites da Torah. E essa foi a sua ruína. Poderia ainda ter sido também a ruína do povo de Israel como um todo, assim como certamente será a ruína da sociedade em que vivemos. É apenas questão de tempo.
Se você se dispõe a viver a Torah, frequentemente isso significa ser colocado em posições de desconforto enorme. Porque não é agradável que sejamos limitados. Mas, é para o nosso próprio bem, e para o nosso desenvolvimento. O que fazemos quando esse conflito ocorre? Podemos recuar diante dos limites dados pela Torah – pois essa é uma função fundamental da Torah – ou podemos avançar sobre eles, e aí a Torah (Instrução) se tornará um amorfo e inútil apanhado de sentimentos ou conceitos místicos, sem a menor serventia. Embora possa ainda dar uma falsa ilusão de espiritualidade aos que gostam de misticismo.
Aceitar os limites não é fingir que eles são agradáveis. Pelo contrário, exponha perante os demais do povo as suas dificuldades. Lembre-se: estamos todos no mesmo barco. Semelhantemente, extravase suas frustrações perante o Eterno. Mas não deixe de obedecer, e você colherá os frutos disso na sua própria vida. Vive muito mais feliz quem tem limites.
É curiosa a punicão que foi dada a Korach (Corá):
“e a terra abriu a boca e os tragou com as suas famílias, como também a todos os homens que pertenciam a Korach, e a toda a sua fazenda.” (Bamidbar/Números 16:32)
Fomos feitos a partir do pó da terra. E a terra tragou Korach (Corá). Se somos matéria orgânica limitada pela existência do corpo, nada mais irônico – e apropriado – que a morte de Korach (Corá) seja simbolicamente semelhante ao caminho que ele escolheu. Os seus limites desaparecem, e ele se torna um com a terra, que o engole.
Coincidência? Pode ser. Mas o destino da ausência de limites não é muito diferente. Por isso, a Torah é vida. Limites não são agradáveis, mas são aquilo que nos permite efetivamente viver, ao invés de apenas sobreviver.

Fonte: Perspectiva Peshat - Blog do Sha'ul

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